Tecnologia

O produto começa a aparecer depois que o software funciona

13 de agosto de 2026
5 min de leitura
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Há algum tempo compartilhei por aqui o RIMG+.

Naquele momento, ele já resolvia o problema que havia motivado sua criação: eu precisava renomear grandes volumes de imagens de forma rápida, previsível e sem transformar uma tarefa simples em um processo manual repetitivo.

O software funcionava.

Mas, olhando para o que aconteceu depois, percebi que aquela talvez tenha sido apenas a primeira parte do trabalho.

Porque existe uma diferença importante entre construir uma solução que resolve um problema e descobrir o que essa solução precisa se tornar quando começa a ser usada.

A primeira versão responde uma pergunta muito específica

Todo produto começa carregando algum nível de hipótese.

No caso do RIMG+, a hipótese era bastante concreta.

Eu tinha uma fricção recorrente no meu próprio fluxo de trabalho. Recebia ou organizava muitos arquivos de imagem e precisava padronizar seus nomes. Fazer isso manualmente consumia tempo demais para uma operação essencialmente mecânica.

A primeira decisão, portanto, não envolveu uma grande visão de produto.

Era mais simples:

como remover essa fricção?

A renomeação em lote respondeu bem a essa pergunta.

E provavelmente seria possível considerar o problema encerrado ali.

Mas usar uma ferramenta repetidamente muda a maneira como você enxerga o próprio problema.

Você deixa de perceber apenas aquilo que motivou a construção e começa a notar tudo que existe ao redor.

O uso começa a revelar coisas que o planejamento não revelou

Depois que o fluxo principal estava funcionando, algumas necessidades começaram a ficar mais evidentes.

Renomear todos os arquivos de uma vez era útil.

Mas e quando apenas um deles precisava de um nome diferente?

Preparar as imagens resolvia uma parte do trabalho.

Mas, muitas vezes, o próximo passo era reduzir o peso desses arquivos antes da utilização.

Ter as funcionalidades disponíveis era importante.

Mas a forma como elas apareciam na interface começava a influenciar cada vez mais a experiência.

Isoladamente, nenhuma dessas questões parecia transformar o projeto.

No conjunto, porém, elas começaram a mudar sua natureza.

O RIMG+ passou a permitir edição individual dos nomes dentro do próprio fluxo. Depois ganhou processamento de vários arquivos, compressão para reduzir o peso em KB preservando as dimensões originais, preparação e exportação, comportamento responsivo e possibilidade de utilização como PWA.

O processamento local também permaneceu como uma decisão importante, principalmente pela privacidade e pela própria natureza dos arquivos manipulados.

Só que a mudança mais interessante não estava necessariamente na quantidade de funcionalidades.

Estava na forma como eu começava a avaliar cada nova decisão.

Antes, a pergunta era “isso funciona?”

No início, meu critério era predominantemente funcional.

Consigo selecionar as imagens?

Consigo aplicar o padrão?

Os arquivos são processados corretamente?

Consigo exportar o resultado?

São perguntas necessárias.

Mas, conforme o produto amadurece, elas deixam de ser suficientes.

A pergunta passa a ser:

o fluxo faz sentido sem eu precisar explicá-lo?

O usuário entende o que acabou de acontecer?

Existe feedback suficiente durante o processamento?

As ações principais têm a hierarquia correta?

É fácil corrigir uma exceção sem abandonar o fluxo?

A interface transmite a mesma maturidade que a funcionalidade já possui?

Essa mudança de pergunta afeta bastante a forma de construir.

Porque código funcionando deixa de ser o único critério.

É nesse momento que UX deixa de ser acabamento

Uma ferramenta interna pode sobreviver por bastante tempo com uma interface apenas funcional.

Você conhece o sistema.

Sabe onde clicar.

Entende as limitações.

Conhece inclusive os comportamentos estranhos, porque foi você quem os implementou.

Para outra pessoa, nada disso existe.

Ela recebe apenas o que a interface consegue comunicar.

Foi por isso que, em determinado momento da evolução do RIMG+, comecei a dedicar mais atenção não apenas às funcionalidades, mas também aos detalhes de experiência.

Hierarquia.

Estados.

Feedback.

Microinterações.

Responsividade.

Consistência visual.

E, recentemente, à própria landing page.

Não porque uma ferramenta utilitária precise parecer mais sofisticada do que é.

Mas porque existe uma relação entre percepção e confiança.

Se estou pedindo para alguém selecionar vários arquivos e executar uma sequência de operações sobre eles, a interface precisa deixar claro o que está acontecendo.

Precisa parecer previsível.

Precisa reduzir dúvida.

Nesse ponto, UX não é decoração colocada depois do produto.

Ela passa a fazer parte do funcionamento dele.

O uso real também muda o roadmap

Outra consequência interessante é que fica mais difícil enxergar roadmap como uma lista linear de funcionalidades.

Quando estamos longe do uso, é fácil imaginar evolução como:

feature A feature B feature C.

Na prática, muitas vezes acontece algo diferente.

Você implementa A.

Usando A, percebe uma fricção no fluxo.

Corrige a fricção.

Isso revela um problema de feedback.

Você melhora o feedback.

A mudança cria uma oportunidade de simplificar outra etapa.

E só então percebe que B talvez nem seja mais tão importante quanto parecia antes.

A evolução começa a ser menos sobre executar uma lista e mais sobre responder ao comportamento do próprio sistema.

Isso não significa desenvolver sem direção.

Significa aceitar que uma parte da direção só aparece depois do uso.

Construir e usar cria um ciclo diferente

Projetos pessoais têm uma característica interessante nesse sentido.

Você consegue reduzir bastante a distância entre quem percebe o problema, quem constrói a solução e quem utiliza o resultado.

No RIMG+, muitas das decisões que vieram depois da primeira versão surgiram justamente desse ciclo.

Eu construía.

Usava.

Encontrava uma fricção.

Voltava para o produto.

Algumas vezes isso resultava em uma nova funcionalidade.

Em outras, em uma alteração de interface.

Em outras, simplesmente em revisar algo que tecnicamente já estava “pronto”.

É um processo menos organizado do que um roadmap idealizado em uma ferramenta de gestão.

Mas, muitas vezes, mais informativo.

Porque o produto começa a responder.

Software pronto é uma ideia confortável

Existe algo tentador em imaginar que o software está pronto quando todos os requisitos iniciais foram implementados.

É uma definição clara.

Mensurável.

E útil até certo ponto.

Mas requisitos descrevem aquilo que conseguimos prever antes do uso.

Produtos precisam sobreviver ao que descobrimos depois.

Continuando a evolução do RIMG+, tenho percebido que boa parte do trabalho mais interessante começou justamente quando a necessidade inicial já estava resolvida.

Não porque o projeto precisava acumular funcionalidades.

Mas porque o uso tornou visíveis perguntas que a primeira versão ainda não precisava responder.

Talvez essa seja uma das diferenças mais importantes entre construir uma ferramenta e continuar construindo um produto.

A ferramenta nasce quando o problema deixa de existir.

O produto começa a aparecer quando você passa a observar tudo que acontece depois disso.

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Publicado em 13 de agosto de 2026
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