04 / Journal
Tecnologia / out. de 2026
O PING começou com uma ausência. E acabou se tornando um produto.
Como a ausência de uma função no Discord deu origem a um mensageiro próprio — e por que construir o PING acabou exigindo muito mais do que escrever código.
Publicado
23 de outubro de 2026
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6 min de leitura
Em agosto, um amigo e eu ficamos sem uma das coisas que mais usávamos para passar tempo juntos na internet: compartilhar a tela enquanto conversávamos.
Parece pouco. Não era uma ferramenta de trabalho, um serviço essencial ou um problema que exigisse uma startup. Era só um hábito: alguém começava a jogar, o outro assistia, a conversa continuava mesmo quando ninguém tinha muito a dizer.
O Discord havia suspendido no Brasil os recursos de vídeo e transmissão de tela, a partir de 17 de agosto de 2026, após uma determinação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. A medida tinha uma motivação séria — a proteção de crianças e adolescentes — e não seria correto tratar esse contexto como um simples inconveniente de usuário. A ANPD explicou as razões da decisão, e o Discord detalhou os recursos afetados.
Para nós, a consequência imediata foi outra pergunta: e se construíssemos uma alternativa para continuar fazendo aquilo que já fazíamos?
Foi assim que o PING começou. Não com um pitch, uma análise de mercado ou uma ambição de substituir o Discord. Começou com uma conversa e uma vontade bastante específica de resolver algo para duas pessoas.
Quando a solução começa a revelar outro problema
A primeira ideia era objetiva: login, chamada, vídeo, compartilhamento de tela. Se isso funcionasse, problema resolvido.
Mas, quando comecei a pensar na interface e nos fluxos, percebi que estava definindo o produto pelo recurso ausente. E aquele recurso não explicava sozinho por que a experiência era importante.
Eu lembrava da sensação de abrir o MSN Messenger e ver quem estava online. A lista de contatos não era um cadastro estático: era um retrato de quem estava por perto naquele momento. O Discord acrescentou algo que também me interessava: os canais permanentes, onde as pessoas podem entrar e sair sem o ritual de criar uma reunião.
O que eu queria recuperar era essa combinação de disponibilidade e espontaneidade. Não só falar com alguém, mas perceber que havia alguém ali para conversar.
Isso mudou a pergunta de projeto. Em vez de “como reproduzir uma chamada?”, passei a perguntar “como reduzir a distância entre estar online e compartilhar um momento?”.
Dessa mudança saiu uma decisão de produto: o PING seria orientado à presença. Mensagens, chamadas e Espaços seriam formas de transformar essa presença em interação, não seções independentes que precisavam competir pela atenção.
O primeiro recorte precisava ser utilizável
No início, existe um risco curioso em construir o próprio produto: como não há um cliente pedindo para cortar escopo, tudo parece importante.
Eu poderia ter começado por temas, molduras, animações ou integrações. Em vez disso, o núcleo precisava responder a uma sequência simples: uma pessoa entra, encontra outra, reconhece sua disponibilidade e inicia uma conversa.
Autenticação, perfis, amizades, presença e mensagens diretas vieram primeiro porque validavam essa jornada. Depois, os Espaços passaram a representar grupos que continuam existindo mesmo sem uma conversa ativa. Os canais de voz e texto trouxeram a possibilidade de encontros mais naturais.
Esse recorte me fez reconsiderar o significado de MVP. Para mim, não se trata de publicar uma versão feia e incompleta. Trata-se de entregar a menor experiência que consegue provar a ideia central sem esconder os problemas importantes.
E alguns dos problemas mais importantes não aparecem na tela.
Um produto social não vive apenas de componentes
O front-end do PING foi construído com Next.js, React, TypeScript e Tailwind CSS, com uma base de componentes que eu pudesse controlar visual e funcionalmente. Supabase, PostgreSQL e Prisma entraram na persistência e nos fluxos de dados; LiveKit, na camada de comunicação de áudio e vídeo. Mais adiante, Electron passou a sustentar a experiência desktop.
A lista de tecnologias, sozinha, diz pouco sobre o trabalho. O desafio real começou quando elas precisaram se comportar como um produto único.
Por exemplo: um indicador de presença pode parecer uma bolinha verde, mas envolve entender quando a pessoa está ativa, ausente, ocupada ou prefere não aparecer. Uma chamada pode parecer um modal com dois botões, mas precisa sobreviver a convites simultâneos, permissões de dispositivos, reconexões e encerramentos incompletos.
Uma interface bonita não compensa a sensação de entrar num canal e não saber se a conexão realmente aconteceu. Da mesma forma, uma arquitetura bem organizada não serve de muito se a pessoa precisa navegar por cinco passos para fazer algo que deveria ser espontâneo.
Foi nesse atrito entre interface, domínio e infraestrutura que o PING deixou de parecer um experimento de fim de semana.
O design também começou a carregar uma responsabilidade
Sempre trabalhei próximo de design e front-end, então a aparência do produto nunca foi uma etapa completamente separada da implementação. Ainda assim, o PING trouxe uma exigência nova: precisava ter personalidade sem criar ruído na comunicação.
Uma conversa direta pode ter o ritmo visual de um messenger. Um canal coletivo pede outra hierarquia de leitura. A área de amigos precisa facilitar reconhecimento e disponibilidade. Já a personalização do perfil dá espaço para identidade individual: fundos, molduras, efeitos e pequenos elementos que fazem sentido em um ambiente social.
Com o tempo vieram também as experiências sazonais, como a identidade de Halloween. Não queria apenas pintar a mesma interface de outra cor, mas testar até onde o produto poderia mudar de atmosfera sem perder seus padrões de uso — e sem tirar do usuário a possibilidade de desligar o tema.
Também tive de aprender a olhar para o que não é tão fotogênico: moderação, bloqueio, denúncia, privacidade e proteção de usuários. Como o projeto surgiu justamente em um contexto que envolvia segurança de menores, seria incoerente ignorar essas responsabilidades ao construir uma alternativa. É uma frente em evolução, que exige validação contínua; não algo que uma biblioteca ou uma tela de configurações resolva sozinha.
A parte mais importante não é a velocidade de desenvolvimento
Usei IA durante o processo para explorar soluções, acelerar implementações e ajudar na análise de problemas. Isso encurtou a distância entre uma hipótese e algo que eu podia testar. Mas também deixou mais evidente uma distinção que venho explorando nos meus Insights: gerar código mais depressa não significa tomar boas decisões mais depressa.
As perguntas continuaram sendo minhas. O que entra no escopo? O que parece pronto, mas falha em situações reais? Qual complexidade é justificável? O que precisa virar teste? Quando uma experiência visual interessante passa a prejudicar a clareza?
Construir sozinho boa parte dessas camadas torna os trade-offs mais explícitos. Não há como colocar a culpa em “outro time” quando a arquitetura e a experiência deixam de conversar entre si.
Talvez esse seja o maior aprendizado até aqui: um produto começa a amadurecer quando você deixa de contabilizar apenas funcionalidades entregues e passa a assumir a consequência delas.
Ainda não é uma história de conclusão
O PING cresceu para incluir conversas, Espaços, chamadas, compartilhamento de tela, recursos de descoberta, personalização e uma distribuição desktop. Também acumulou correções, refatorações, testes e decisões que eu faria de outra forma se estivesse começando agora.
Há muita coisa para aprimorar. Latência percebida, confiabilidade das sessões, consumo de recursos, segurança, experiência mobile e operação continuam na mesa. Eu não quero apresentar o PING como produto acabado nem transformar cada dificuldade em narrativa de sucesso.
Quero documentar o processo enquanto ele ainda está acontecendo.
Porque a origem continua sendo uma boa régua: duas pessoas queriam passar tempo juntas. Se o produto ficar sofisticado demais para tornar isso simples, provavelmente vou precisar reconsiderar minhas escolhas.
Nas próximas publicações vou aprofundar três decisões que parecem pequenas na interface, mas mudaram a engenharia e o desenho da experiência: presença em tempo real, chamadas confiáveis e o design de um lugar social.
Por enquanto, o PING pode ser conhecido em pingsocial.online. E, para mim, continua sendo a mesma pergunta do começo — só que agora com muito mais código, contexto e responsabilidade ao redor.
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